Tribunal do Júri condena a 28 anos ex-funcionário tido como ‘irmão’ por feminicídio e ocultação de cadáver de médica em Rio das Ostras

O Tribunal do Júri da Comarca de Rio das Ostras proferiu, nesta quinta-feira (28), a condenação de Emanuel Pereira a 28 anos de reclusão em regime fechado pelo assassinato da médica cearense Glaubênia Serpa Costa, de 53 anos. O Conselho de Sentença acolheu integralmente as teses do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), responsabilizando o réu pelos crimes de feminicídio qualificado, ocultação de cadáver, furto e falsidade ideológica. O caso chocou a Região dos Lagos e o Norte Fluminense devido à complexidade da farsa montada pelo acusado para encobrir o homicídio.

O crime ocorreu em julho de 2023, no interior da residência da vítima, localizada em Rio das Ostras. Emanuel exercia funções de apoio doméstico e prestava serviços diversos para a médica, desfrutando de extrema confiança por parte da empregadora, a ponto de ser por ela apresentado a terceiros como um irmão. De acordo com o depoimento prestado pelo próprio acusado durante as investigações, o assassinato foi motivado por uma discussão no imóvel: Glaubênia havia começado a desconfiar que o funcionário estava subtraindo objetos de valor e quantias financeiras da casa, ameaçando encaminhar uma denúncia formal à Polícia Civil. Diante da ameaça, o homem desferiu golpes de faca contra a médica, provocando a sua morte.

Para impedir a descoberta do homicídio, Emanuel abriu uma cova clandestina no quintal da própria residência de Glaubênia, onde sepultou o cadáver e ocultou a arma utilizada na ação. Em virtude de a médica ser natural do Ceará, não possuir parentes residentes no Estado do Rio de Janeiro e manter um estilo de vida reservado e solitário, o desaparecimento demorou meses para levantar suspeitas formais na vizinhança.

Se aproveitando do isolamento da vítima, o acusado estruturou uma elaborada rede de mentiras. Ele informou a amigos, vizinhos e conhecidos da médica que ela havia entrado em um quadro severo de depressão e que decidira se afastar temporariamente dos trabalhos na cidade para viajar a Gramado, na Serra Gaúcha. Simultaneamente, ao longo de cerca de oito meses, Emanuel tomou posse do aparelho celular da vítima e passou a responder mensagens e movimentar diariamente suas contas nas redes sociais, simulando que Glaubênia continuava viva.

A farsa estendeu-se para o campo financeiro e profissional. O acusado passou a operar as contas bancárias da médica, efetuando saques e transferências, apropriou-se de seus bens e chegou a transferir a propriedade do automóvel de Glaubênia para o seu próprio nome. As investigações apontaram ainda que o réu vinha emitindo e assinando atestados médicos no nome da falecida para terceiros.

Da investigação à caçada policial

A apuração sobre o paradeiro da médica teve início formal em janeiro de 2024, após uma requisição do Ministério Público. As diligências conduzidas pela 146ª Delegacia Policial de Guarus (146ª DP), em Campos dos Goytacazes, identificaram inconsistências nos depoimentos e rastrearam a rotina do suspeito. Em março de 2024, após o avanço do inquérito, os agentes foram até o imóvel e confrontaram Emanuel, que confessou o assassinato, apontou o local exato da cova no quintal e entregou aos policiais a faca empregada no delito.

Apesar de ter sido preso em flagrante na ocasião pela ocultação do cadáver e indiciado por feminicídio, o acusado conseguiu obter o benefício da liberdade provisória meses depois no decorrer do processo penal. Logo em seguida, teve a prisão preventiva decretada novamente, tornando-se foragido da Justiça.

Mesmo sediada em outro município, a equipe da 146ª DP manteve o monitoramento do acusado. Em fevereiro de 2026, após uma operação de inteligência que envolveu um dia inteiro de campana e monitoramento no bairro Maria Turri, em Rio das Ostras, os policiais civis localizaram Emanuel escondido em uma pousada. O homem tentou fugir do cerco, mas foi interceptado e conduzido à delegacia.

Com o veredito exarado pelo Tribunal do Júri nesta quinta-feira (28), a sentença declarou o encerramento da instrução criminal, determinando o imediato recolhimento do condenado ao sistema prisional do Estado, onde dará início ao cumprimento da pena de 28 anos.

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